Falar é fácil , difícil mesmo é abrir cada
gaveta emaranhada pra buscar por um bilhete do sucesso e não fechar de novo,
porque amanhã você procura de novo porque hoje é melhor nem mexer. Difícil é
deixar o conforto da cama no horário bem cedo pra levantar mais cedo ainda e
fazer outra coisa, que não somente o que deveria ser feito, estabelecido por
você mesmo. Difícil é não ter preguiça, não ter sono, não ter angústia, não
sofrer porque engordou. Difícil é dizer que não, nada haver, “o que interessa
mesmo é a beleza interior” e acreditar nisso no fundo do seu coração. Difícil é
não querer ser importante, famoso, reconhecido. Difícil é não fumar quando se
fuma e quer parar e dói algum sentimento. Difícil é dizer que não dói quando dói
tudo, até o dedinho do pé, quando lá dentro machuca. Difícil é viver sem
reclamar. É achar que ta sempre tudo bem, que o dinheiro lhe basta, que as
unhas descascadas estão OK, que o pão murcho da padaria agrada, que pessoas
morrem e nascem todos os dias e nada disso incomoda. Então é difícil mesmo é
ser assim, alheio ao mundo, autista por querer e, pior, tentar, todos os dias
se convencer disso. Difícil é levar tombo. É quebrar a perna, a cara, o quadro
de paisagem. Difícil é deixar seu rádio de subconsciente ligado á noite
zumbindo no seu ouvido. Mais difícil é lutar para sua razão acreditar que eram
apenas sonhos. Difícil olhar para as estrelas e não querer fazer um pedido, um
gênio da lâmpada, um anjo, um milagre. Uma coisa qualquer de fora. Difícil é ser
assim como é, sem estampa, com todos os fatos, atos e condições de nome
defeito. Ser assim, arrogante, careta, careca, bobo, inocente, vulgar, medroso, melodramático, pessimista, previsível
e: perfeccionista, lógico. Difícil ser isso tudo de cara limpa, de peito
aberto, sem esconderijos na alma, sem saídas de ego. É difícil isso tudo e ser
bacana, admirado, agradável aos gregos e aos troianos, aos africanos, aos
indianos, aos pobres, aos ricos, aos políticos, aos vermelhos, brancos,
amarelos, pretos, pardos e poetas.
Difícil é isso tudo sem machucar, sem cutucar, sem abrir fendas, feridas e
conceitos. É difícil ser gente grande e ser gente pequena. Difícil se
desprogramar. Difícil desorganizar, entrar em pane, sacrificar matéria prima do
desmontar: o que dói. Difícil definir o que realmente dói. Difícil entrar pra
dentro, sair do fora, virar casulo de borboleta. É difícil olhar pro seu
espelho e não virar as costas. É difícil ser você, ser a gente. E ser agente da
mudança que nunca teve coragem de continuar pensando quando lhe vem à
mente. Falar é fácil! Difícil é ser.
Experimentar é apavorante e largar mão. Desconectar. Se falar é fácil, e muito
fácil, falar para os outros é facílimo! Dizer pra si é extraordinário.
Experimentar chutar a porta com o dedão do pé é prova de que, depois do
curativo que se dá, o alívio é evento consequência. Se difícil, então, é chutar a porta e rasgar
o dedo do pé na metade, fácil é olhar lá dentro da ferida. E assim descobre
sangue,ossos, a raiva, a porta malvada, os xingamentos, as culpas dos outros. E
as suas. Passada a fase do outro, começa a fase você. E aí, não tem como fugir
por muito tempo. Por hora da pra ver, que
se fizer o caminho INVERSO, irá encontrar a chave do "sucesso" e tudo que saiu da sua boca, fez você chegar ao coração...
[Luane. V. Figueiredo]




